Digressões #1
Introdução
Com este post, inauguro um tipo de texto importante para este blog, as digressões. Pensamentos aleatórios, em sua maioria enigmáticos para o próprio escritor e desorganizados para o leitor, serão publicados sob este título. Aproveite!
Digressões #1 - Assentamento
Acabo de sair de uma de minhas sessões semanais da terapia e sigo com um pensamento que há muito ocupa minha mente. O assentamento das ideias. Sei que só entendemos assuntos profundos quando significamos os mesmo, colocamos em palavras aquilo que só discutíamos com nós mesmos (na mente). Entretanto, isso toma outra proporção quando discutido à luz do processo da análise.
Penso que a coisa se dá em alguns passos:
- Você entende a questão o suficiente para começar a pensar ativamente sobre ela;
- Você entende a questão o suficiente para decidir falar sobre ela na análise;
- Você fala sobre ela na análise e entende a questão mais profundamente do que nunca;
- Depois da sessão, você assenta a questão na parede da sua cabeça, como se agora ela fizesse parte da matriz de assuntos os quais você possui uma compreensão verdadeiramente satisfatória.
É no ponto (4) (como pode-se observar pela quantidade de caracteres que este possui) que jaz a discussão que procuro - mesmo que de modo cambaleante - promover aqui. A sensação descrita me remete à um baú cheio de tesouros afundando lentamente até o fundo do oceano: é somente lá que podemos abrí-lo e entender suas riquezas. É uma sensação única de trabalho cumprido, mesmo que ainda esteja em andamento. O inconsciente é estupidamente surpreendente nesse sentido, nos fornecendo a possibilidade de trabalharmos - de forma essencial, diga-se de passagem - mesmo parados, fazendo qualquer outra coisa senão desenvolvendo tal trabalho. Quem é músico sabe a sensação de treinar alguma peça até cansar e, exatamente por conta desse processo constante do obscuro da mente, retornar à mesma peça com muito mais clareza do que está sendo feito.
Penso que o processo da análise é extremamente similar. Escutamos com calma à música que formamos com nossas palavras, com nossos sentimentos, somente depois que cada nota foi colocada cuidadosamente na partitura. É aí que entendemos, é aí que aceitamos, é aí que a coisa se assent(á) em nosso pensamento.